Como tirar 20 num exame?

Não é missão impossível nem feito inédito. Só no ano passado 686 estudantes conseguiram nota máxima num exame nacional do Ensino Secundário, aqueles que abrem as portas da universidade. Dois desses alunos revelam agora o seu segredo.

Ricardo Oliveira, 18 anos, e Carolina Duarte, 20 anos, tiraram nota máxima em dois dos mais problemáticos exames do Ensino Secundário. Ele fez Matemática A na Secundária Stuart Carvalhais, em Massamá, e entrou para Medicina, na Universidade Nova. Ela fez Física e Química A no Rainha D. Leonor, em Lisboa, e está no segundo ano de Física, na Faculdade de Ciências.

Quando é que começaram a preparação para os exames? Tinham algum objetivo definido à partida? Qual? Descrevam o vosso método de estudo.

RICARDO OLIVEIRA – Comecei a estudar para os exames quando terminaram as aulas. O meu objetivo principal era manter a nota interna (19 valores). No caso de Matemática queria também ter o melhor resultado possível porque era a única prova específica de ingresso que me faltava. Durante a minha preparação fiz todo o tipo de exercícios e exames de anos anteriores.

CAROLINA DUARTE – Foquei-me exclusivamente no exame e fiz uma preparação mais específica durante dez dias, entre o fim das aulas e o início dos exames. O meu objetivo era trabalhar para o 20 sem, contudo, criar demasiada expetativa. Durante a preparação li e reli a matéria, fiz perguntas e procurei as respostas até que as coisas fossem claras.

Quantas horas estudavam por dia? Como é que organizavam o trabalho diariamente quando estavam a estudar para os exames? Onde é que estudavam?

Tirar 20 num exame

RICARDO OLIVEIRA – Estudava quatro ou oito horas por dia, conforme estudasse também para a prova de Português. A matéria estava dividida em três capítulos (“Análise Combinatória e Probabilidades”, “Funções” e “Trigonometria e Números Complexos”) e estudava cada capítulo durante dois ou três dias. Começava por rever as fórmulas que tinha aprendido e os tipos de exercícios que já tinha feito. Depois fazia exercícios ou tentava deduzir as fórmulas que não compreendia tão bem. Por último fazia um ou dois exames de anos anteriores. Nos últimos dias só fiz exames. Estudava na mesa da sala. Não tinha espaço suficiente no quarto.

CAROLINA DUARTE – Nos dias antes dos exames, como não tinha aulas, chegava a estudar seis a sete horas. Nessa fase, acordava entre as 8h e as 9h e passava a manhã a rever algumas coisas, a revisitar pormenores perdidos na poeira da memória. Ao almoço usualmente saía para ir ter com alguém e desanuviar um pouco, regressando para fazer uns três exames durante a tarde. O objetivo era resolvê-los em metade do tempo, corrigindo-os segundo os critérios e analisando cada pormenor passível de ser melhorado. Assim se passava um dia de estudo, até porque a noite era de descanso. Normalmente, estudava no meu quarto.

Viam TV, ouviam música ou navegavam na internet enquanto estudavam? Tinham o telemóvel ligado?

RICARDO OLIVEIRA – Não via TV, não ouvia música e não navegava na internet a não ser para procurar exames e soluções, mas tinha o telemóvel ligado e sempre comigo porque às vezes havia colegas a fazer-me perguntas. E por vezes estudava com companhia.

CAROLINA DUARTE – Ouvia música ocasionalmente, mas regra geral preferia o silêncio absoluto. Televisão ou navegar na net só nas pausas. Quanto ao telemóvel, costumava estar ligado, mas muito frequentemente o seu paradeiro era-me desconhecido.

Tinham algum cuidado específico com a vossa alimentação? Evitavam algum tipo de alimentos? Quantos cafés bebiam por dia? Como é que ocupavam os tempos livres? Faziam algum desporto? Qual?

RICARDO OLIVEIRA – Evitava comer muito ao almoço para não ficar sonolento, mas comia com mais frequência. Na altura ainda não bebia café. Nos meus tempos livres, lia, ouvia música, via televisão, navegava na internet, tocava guitarra, estava com os amigos ou com a namorada. Não consegui fazer nenhum desporto nem atividade durante a época de estudo para os exames e acho que no fim senti falta.

CAROLINA DUARTE – Quanto à alimentação nunca tive nenhum cuidado especial nas épocas de exames que não tivesse no resto do ano. Já os cafés para mim são um mito, não gosto deles! Mas também nunca senti necessidade disso ou de algo semelhante para manter os sentidos despertos. Ocupava os tempos livres a falar com amigos, às vezes a esclarecer-lhes dúvidas, a ler poesia, a passear ou a ver um filme. Quando não estava em Lisboa, andava de BTT, nadava no rio e, quando as noites estavam para isso, ‘caçava’ enxames de estrelas com o telescópio.

Como é que controlaram a ansiedade antes e durante o exame? Como é que abordaram a prova? Leram a prova na íntegra antes de começar a responder?

RICARDO OLIVEIRA – Durante o exame concentrei-me unicamente na prova. Antes, estava ocupado a estudar, a rever mentalmente o que tinha estudado, ou então estava mais preocupado em descansar. Além disso, tinha sempre em mente que eram apenas três horas de esforço e que depois estaria de férias. Quando me entregaram a prova, vi que tipo de exercícios tinha de fazer, mas não os li para que quando estivesse a fazer um exercício não me preocupasse com aqueles que tinha pela frente.

CAROLINA DUARTE – Nem eu sei bem, é sempre complicado. Para mim, o que mais me deixava descansada era a consciência de que tinha feito tudo o que estava ao meu alcance. Ainda assim, seguia um certo ritual: tentava não olhar mais para a matéria no dia anterior e, principalmente, nas derradeiras horas antes do exame. Preparava as minhas coisas, testava se as canetas escreviam, arranjava pilhas suplentes para a calculadora, deitava-me cedo… Nesta fase a música costumava acalmar-me e, por isso, no dia do exame levava os auscultadores postos até à sala que me estava destinada. Desta forma, esquivava-me ao ambiente de ânsia e nervosismo que pairava nos corredores.

O que sentiram quando viram a nota? Estavam a contar ter 20 valores?

RICARDO OLIVEIRA – Foi uma grande surpresa. Estava a contar ter boa nota, porque o exame me tinha corrido bem, mas não pensei ter 20.

CAROLINA DUARTE – Quando saí do exame tinha a consciência de que ia ter uma nota brilhante e tive a certeza depois de ver as soluções e os critérios. Mas prever se seria um 19 ou um 20… era difícil. Por isso, fiz por aproveitar as férias. Quando voltei a Lisboa e soube da nota foi uma explosão de alegria e satisfação. Uma sensação de vitória espetacular. Uma prova de que o trabalho, a perseverança e a motivação compensam.

Este artigo foi originalmente publicado no Expresso.

3 comentários

  1. Zé Caralho
    • Zé Caralho

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